Arábia Saudita Península Arábica

Morando na Arábia Saudita: a minha experiência

Written by Debora Garcia

No último post eu contei como fui parar na Arábia Saudita e agora quero compartilhar mais sobre como foi a minha experiência morando no país mais conservador do mundo. Vem comigo!

Meu trabalho

Como você já deve saber, eu sou professora de inglês e eu fui contratada pelo curso Wall Street English para trabalhar em Buraidah, Al Qassim, no interior da Arábia Saudita.

A escola tinha acabado de abrir e eu fui a primeira professora a ser contatada. Depois de um tempo, chegou uma professora do Paquistão, depois uma inglesa e por último uma americana. A maioria das outras funcionárias eram sauditas e tínhamos uma da Síria, duas da Jordânia, uma da Palestina, uma das Filipinas e duas meninas da limpeza de Bangladesh.

Assim como as funcionárias, todas as alunas eram mulheres. Na Arábia Saudita, ainda existe segregação de homens e mulheres desde a idade escolar então praticamente tudo (até os bancos) tem uma filial masculina e uma feminina. O meu curso também era assim, male branch e female branch. Ao todo, em dois anos e meio trabalhando lá, eu tive mais de 700 alunas, sauditas em sua maioria. Tive no máximo 10 alunas de outras nacionalidades.

Eu amava meu trabalho e todas as mulheres com quem convivi. Foi extremamente gratificante, aprendi tanto!

Onde eu morei

Eu morei em Buraidah, na região de Al Qassim, a mais conservadora do Reino. A cidade fica no meio do nada, cercada pelo deserto por todos os lados. De carro, são quase 4 horas até a capital Riade e mais de 12 horas até Jeddah. A cidade é famosa pelas plantações de tâmaras e pelas fazendas de camelo.

Como a cidade é super pequena, não tem muitos estrangeiros morando lá. Há apenas 1 compound (condomínio fechado apenas para estrangeiros) e não era onde eu morava. O meu empregador me pagava um valor para a  acomodação mas não dava pra cobrir o valor do compound.

Além do mais, eu queria ter a experiência mais real possível, então não queria ficar enfurnada num condomínio. Aluguei um apartamento normal, perto do meu trabalho, e minha chefe era minha vizinha. Os outros vizinhos eram da Jordânia e do Egito.

Eu gostei de morar num apartmento normal porque eu tive a oportunidade de viver como todo mundo vive lá. A vida num compound tem seus privilégios (as mulheres podem dirigir, você pode vestir o que quiser, tem piscina, academia, alguns tem restaurantes, cinema…) mas ao mesmo tempo você se isola naquele mundinho. Eu não tive nada disso, tinha uma “vida saudita”.

Buraidah, Al Qassim, Arábia Saudita

Vida social

Essa é uma questão complicada pra quem se muda pra Arábia Saudita. Se você mora num compound, você tem muito mais opções de diversão e de interação com outros. Mas não era o meu caso.

A minha vida social se resumia às minhas amigas de trabalho e às minhas alunas e, olha, não faltou diversão… haha Quando o clima estava mais ameno, a gente ia pro deserto fazer piquenique, brincar com os camelos, fazer skibunda na areia, ou só sentar e beber chá contemplando o por do sol. Se estava muito quente, a gente ia pra casa de alguém e ficava até altas horas fofocando, dançando, cantando, comendo e comendo e comendo… haja comida!

Não tem bar nem nada disso então as saidinhas eram pra restaurantes e cafés, além dos shoppings, claro. É onde as mulheres passam a maior parte do tempo porque não tem mais nada pra fazer em Qassim.

Durante alguns meses, alguns brasileiros vieram morar em Buraidah enquanto trabalhavam nos clubes de futebol locais. Eles eram uns fofos e as esposas vieram durante um tempo também. Infelizmente, eu não conseguia vê-los com frequência por causa do meu trabalho mas até fizeram uma festinha de aniversário pra mim. <3

Lembrando que não é permitido qualquer tipo de interação em público entre homens e mulheres então foram 2 anos e meio só saindo, interagindo, conversando e passando tempo com mulheres.

O que eu vestia

Nas cidades grandes apenas a abaya (o vestidão cobrindo o corpo todo) é obrigatória mas onde eu morava, eu não tinha esse luxo. Eu tinha que andar coberta da cabeça aos pés todas as vezes que saía da casa. Mostrei nesse vídeo como eu me arrumava:

Muitas estrangeiras não se adaptam mas eu não tive qualquer problema. Já cheguei no aeroporto toda vestida e sempre foi tranquilo pra mim. Era quente? Era! Mas nada que um banho gelado não resolvesse depois… haha

Sempre me perguntam o que aconteceria comigo se eu saísse sem a vestimenta completa. Eu vi acontecer umas duas vezes no shopping. A polícia religiosa chega perto e pede pra pessoa colocar o niqab (que cobre o rosto) e pronto. Em todo o tempo que eu morei lá, só vi isso acontecer duas vezes porque todo mundo já vai pra Buraidah sabendo que TEM QUE SE COBRIR TODA. É a regra da região. Se não quer usar abaya + hijab + niqab, não vai pra lá!

Quando eu estava trabalhando, eu podia usar a roupa que quisesse porque só tinha mulheres lá dentro e era tudo fechado, ninguém via nada do lado de fora. Em casa e quando eu ia na casa das minhas amigas e alunas eu também vestia o que quisesse porque só tinha mulheres. Se qualquer homem entrasse no ambiente, a gente tinha que se cobrir toda.

A religião

A Arábia Saudita é o berço do Islam então TUDO gira ao redor disso e eu tinha que planejar todo o meu dia de acordo com as 5 orações diárias. Se eu queria ir ao supermercado, ao banco, ao restaurante, tinha que estar atenta ao horário porque tudo fecha durante a oração. Era um pouco frustrante quando você estava com pressa mas logo entrei no ritmo.

Outra coisa importante é que durante todo o tempo que eu morei lá, NINGUÉM tentou me converter. Absolutamente ninguém. Isso me surpreendeu demais porque eu esperava uma chuva de pregações… haha

O que tinha e o que faltou

A comida árabe de forma geral é maravilhosa então eu não sentia falta de comida brasileira. Ainda bem, porque não tem nada lá! Em Buraidah não tinha feijão preto pra cozinhar (só em lata e era horrível), não tinha arroz como o brasileiro, não tinha outras brasileiras vendendo pão de queijo, coxinha e etc. (como tem em Dubai e no Bahrain, por exemplo). Eu tinha que me contentar com a comida local e não passei fome. Pelo contrário, só engordei… Também não tem nenhum tipo de álcool ou carne de porco (é proibido no país todo).

Na minha cidade tinha ótimos restaurantes, japonês, chinês, Applebee´s, Mc Donald´s, Burger King, Starbucks… Tinha apenas dois shoppings na cidade mas tinha Zara e várias outras lojas bacanas.

As restrições

Quando eu morava na Arábia Saudita, as mulheres ainda não podiam dirigir. Isso quer dizer que a minha mobilidade era bem reduzida. Eu não podia ter um carro e ir pra onde quisesse, a hora que quisesse. Mas a escola onde eu trabalhava disponibilizava um motorista pra mim. Então, toda vez que eu queria sair, eu ligava pra ele e pronto. Ele também me levava e me buscava no trabalho todo dia.

Se eu quisesse ir pra algum lugar mais perto, eu ia andando mesmo. Muita gente ainda acha que é proibido mulheres andarem sozinhas mas isso é mito. Assim como eu, várias mulheres iam andando pra onde queriam.

Em junho de 2018, as mulheres começaram a dirigir novamente. Queria muito estar lá pra vibrar com elas!

Outro mito é que é proibido mulheres viajarem sozinhas. Eu viajei de ônibus e de avião muitas vezes e vi várias outras mulheres sauditas sozinhas. Uma vez encontrei por coincidência uma amiga do trabalho voando pra Riade no mesmo voo que eu!

O Ramadan

Eu passei dois Ramadans na Arábia Saudita e foi incrível. Tudo muda, eu trabalhava em horários doidos, até 2 da manhã porque ninguém dormia/ acordava cedo. As cidades ficam todas enfeitadas, as pessoas ficam mais generosas, eu ganhava comida de graça quando ia ao mercado ou nos restaurantes.

Outras viagens

Tive a oportunidade de conhecer outros lugares da Arábia Saudita também. Sempre que tinha um tempinho livre eu voava pra Riade ou pra Jeddah. Sempre sozinha e aproveitava mesmo assim! O país é extremamente seguro!

Se eu gostei da Arábia Saudita?

Eu amei! haha Quando eu digo que amei morar na Arábia Saudita, ninguém acredita. Como pode, uma carioca gostar de morar lá? Eu não sei explicar mas me senti em casa. <3 Fui super bem recebida por todos, nunca senti qualquer preconceito, nunca fui tratada diferente, as pessoas são super amigáveis e receptivas, e o país inteiro é mega seguro.

Mas nada nessa vida dura pra sempre, e em 2016 meu tempo na Arábia Saudita chegou ao fim. Com um aperto no coração, eu fui embora. De lá, eu me mudei para o Bahrain e depois para o Líbano.

Sinto muita saudade do tempo que passei lá e das minhas amigas. Nós mantemos contato até hoje e toda vez que eu ouço suas vozes no whatsapp, eu choro. Choro porque eu sei que provavelmente nunca mais as verei na vida! 🙁

Foi um tempo maravilhoso, que mudou a minha vida e a minha visão de mundo. E pode ter certeza que se eu puder, eu volto!

Muito amor

About the author

Debora Garcia

Conheço 13 países mas escolhi o Oriente Médio para morar. Saí do Brasil em 2014 para trabalhar como professora na Arábia Saudita. Desde 2016 trabalhando no Líbano. <3

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